HOMENAGEM AOS CABOCLOS

🔸No próximo sábado, 14/03, às 19h, Gira Pública, em HOMENAGEM AOS CABOCLOS.

Desejando, traga uma fruta e uma vela verde, devidamente identificada com seu nome, para serem consagradas em nosso altar.
Venha celebrar o encontro das matas com o quilombo.

🔸 Em virtude da homenagem, os atendimentos com os Pretos Velhos não aconteceram nesta quarta (11/03).
Retorno será avisado aqui no site.
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CABOCLOS Eles não são apenas indígenas

Primeiramente precisamos entender o que significa a palavra CABOCLO, sua origem e etmologia para tentarmos tecer os pensamentos sobre esses espíritos.

CABOCLO [ca-bo-clo], s. m. e adj.
1. Mestiço de branco com índio.
2. Indivíduo de cor acobreada e cabelos lisos, típico do interior do Brasil.
3. Fig. Pessoa rústica, roceiro, caipira. [Do tupi ca'aboc, 'o que vem da mata'].
Segundo dicionário Aurélio (1975), 1° Ed.:

Caboclo portanto é um MESTIÇO, que ocupa lugar central nos terreiros.

Ele é, antes de tudo, o sobrevivente dessa política de extermínio e genocídio, que via na "mistura" um caminho para o apagamento das raças não brancas.

Embora a imagem popular muitas vezes se fixe exclusivamente no indígena, é certo afirmar que ele é também um indígena, mas não apenas.

Ele carrega no nome a miscigenação, denunciando a sua raiz e a sua sobrevivência.
Em nosso entendimento, ele é um corpo denúncia: aquele que se manifesta nos terreiros para nos lembrar de quem somos e de onde viemos.
É a presença que carrega, nas kizombas, a resistência de povos excluídos e marginalizados pela sociedade. (David Dias, 2024)

São corpos que movimentaram a economia deste país e que denunciam o histórico de violência e miscigenação, corpos que só não foram esquecidos porque permanecem vivos através de nós, na Umbanda, e nas religiões de matrizes africanas.

Entendemos que o Caboclo, ao se manifestar, não é uma 'entidade' abstrata, é muito menos "fluídica", mas Nguzu (força vital) que se faz presente.
Ele não representa ou nos faz lembrar apenas o indígena de forma isolada, ele é o encontro de memórias que sustentam nossa identidade.

Ele sempre será um corpo que denuncia o trauma, mas que celebra a sobrevivência.
Se ele vive nas religiões de matrizes africanas, é porque nossa memória ancestral é mais forte que o projeto colonial de esquecimento e apagamento.

Quando um Caboclo pisa no terreiro, ele traz no próprio nome a sua certidão de nascimento: kuriboka, o mestiço.

É curioso como muitos repetem esse nome sem jamais parar para ouvir o que ele diz.
O Caboclo não é ‘apenas e tão somente’ indígena, ele foi na carne e agora é o espírito da encruzilhada brasileira.

Para tentar justificar o apagamento dessa realidade, muitos recorrem ao conceito de ‘imagem fluídica’.
Mas pensem comigo: se dizemos que ele apenas ‘se apresenta’ assim para nos confortar, estamos chamando a entidade de mentirosa?

Ainda há quem tente explicar a potência dessas entidades, como se o Caboclo fosse um personagem que o espírito ‘escolhe’ interpretar.
Isso não faz sentido.
Se a entidade diz que é Caboclo e você diz que é apenas um ‘fluido’, quem está sendo fiel à verdade?

Além do mais, se esse espírito te engana, na forma, como você confia nele?
E ainda assim, para que ele sairia de “Aruanda” pra te enganar e ser quem ele não é?

Percebe como essa lógica é fútil e desrespeitosa diante da magnitude desses espíritos?

O Caboclo não é um disfarce ou uma performance estereotipada, ele é a materialização da nossa miscigenação real, aquela forjada na resistência, não no mito da democracia racial.

Entender o Caboclo é entender a nossa própria origem.
Ao se apresentar como kuriboka (mestiço), essa entidade rompe com a ideia de uma pureza inexistente e assume as marcas da nossa terra.

Precisamos abandonar a muleta da 'imagem fluídica'.
Essa ideia de que o espírito 'se veste' de Caboclo é uma herança colonial que tenta tirar a humanidade e a historicidade da entidade. O Caboclo não nos engana, ele nos revela.

Ele é o corpo-denúncia.
É o encontro das matas com o quilombo, a prova viva de que identidades indígenas e pretas se abraçaram para não sucumbir ao jugo colonial.

Texto e imagem por: @terreirocandieiro
 

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